Festa Literária de Parati abre espaço para grandes nomes do jornalismo literário
*por Marcella Vieira
O jornalismo literário conseguiu unir reportagem e literatura. Esta seria uma forma mais simplista e básica de definir o termo que, há anos, cativa tanto os amantes das grandes reportagens investigativas quanto os da boa literatura. A revista americana “The New Yorker” foi o principal veículo que alçou esta forma de se fazer jornalismo a um patamar de prestígio nas rodas de literatura mundo afora. Alguns dos mais destacados nomes do jornalismo norte-americano, como Truman Capote, Tom Wolfe, Lillian Ross e Philip Gourevitch, além de colaboradores da publicação, são também vistos como grandes escritores e autores, cujas obras enriqueceram a literatura dos Estados Unidos e influenciaram gerações.
No início dos anos sessenta, foi iniciada no jornalismo norte-americano uma corrente intitulada new journalism, onde textos jornalísticos ganhavam tratamento literário, combinando a objetividade dos fatos aos recursos da narrativa de ficção e, sobretudo, da boa escrita. Truman Capote, talvez o mais talentoso e, certamente, o mais polêmico dentre estes escritores, gostava de dizer que “A Sangue Frio”, sua mais famosa obra, iniciava um novo tipo de literatura: o romance de não-ficção ou romance sem ficção.
Em agosto de 2006, fui à Festa Literária Internacional de Parati (FLIP) para participar de uma oficina de jornalismo. A oficina contou com a parceria e a contribuição da revista Piauí, um veículo que será lançado com a pretensão de dar novas formas e dimensões à reportagem, gênero tão esquecido pela grande mídia brasileira, e uní-la, obviamente, a um texto de alta qualidade. Mas além da oficina, a revista também apoiou duas mesas que trouxeram figuras ilustres do mundo da reportagem: “Profissão repórter: na linha de frente” com as participações de Christopher Hitchens e Fernando Gabeira e mediação de Merval Pereira e “Profissão repórter: a arte da reportagem”, que contou com Philip Gourevitch e Lillian Ross.
Compareci aos dois debates e achei a primeira mesa ruim e extremamente focada em debates políticos. Não há, aliás, nenhum mal no enfoque dado à política. O problema é que a discussão ficou vazia e acabou sendo uma espécie de conversa acalorada sobre os assuntos do momento. A discussão política tornou-se inútil, a reportagem – o suposto tema principal da mesa – foi esquecida e o debate virou uma troca de ofensas entre os participantes, com direito a um personagem extremamente caricato: o inglês Christopher Hitchens.
Já a mesa que contou com Gourevitch e Lillian Ross foi excelente por ter abordado exatamente o assunto ao qual estava destinada: a arte da reportagem. E ninguém melhor para debater tal tema do que dois colaboradores da “The New Yorker”, sendo que um deles – Ross – é uma espécie de baluarte da revista, além de referência lendária do jornalismo norte-americano.
Assim, para todos aqueles que pretendem se aventurar pelo ofício da reportagem e que sabem da importância de se desenvolver, acima de tudo, um texto de qualidade, são destacadas abaixo as publicações de alguns dos autores aqui citados. Preparamos boas dicas de leitura para aqueles que, jornalistas ou não, querem conhecer melhor o universo do jornalismo literário:
A Sangue Frio (In Cold Blood)
Autor: Truman Capote
Editora: Companhia das Letras
O livro de Capote é um marco do jornalismo literário. Uma obra ousada, emotiva e sem precedentes na história da literatura norte-americana, pois redefiniu os limites entre texto jornalístico e narrativa de ficção. Quando leu, em 1959, uma pequena nota em um jornal sobre o assassinato da família Clutter em Holcomb, Kansas, Capote partiu para a pequena cidade e investigou o caso por conta própria. Ao todo, foram mais de seis anos de investigações, com direito a exaustivas conversas e relatos e a ajuda de uma memória que, garantia o próprio – e nada modesto – autor, beirava a perfeição. Ele fez, assim, uma precisa reconstituição de um crime e das conseqüências que este trouxe aos habitantes da pequena cidade. Em 1965, o texto foi publicado, em quatro partes, na revista The New Yorker, para, logo depois, chegar às livrarias e se tornar um sucesso instantâneo da literatura contemporânea. É livro obrigatório não apenas para jornalistas, mas, principalmente, para todos aqueles que amam e acreditam na boa literatura.
Curiosidade: Foram muitos os boatos de que Capote manteve um relacionamento amoroso com Perry Smith, um dos acusados do crime. E estes boatos ganham contornos nítidos ao longo do livro, já que é facilmente perceptível o quanto o autor demonstra compaixão e afeição ao descrever a vida, as motivações e as características do assassino.
O Filme (Picture)
Autor: Lillian RossEditora: Companhia das Letras
Se Truman Capote foi o grande ícone do jornalismo literário e trouxe notoriedade ao chamado new journalism foi porque, em meados dos anos cinqüenta, ele leu o livro “Picture” de Lillian Ross. Capote não cansava de exaltar as qualidades do livro de Ross, uma das estrelas da FLIP 2006. Em 1951, ela, então uma jovem repórter, recebeu um convite do diretor de cinema John Houston para acompanhar e investigar todo o processo de desenvolvimento do filme “A glória de um covarde”. O livro narra todos os passos da produção de um filme dentro dos rígidos padrões da indústria cinematográfica norte-americana. Lillian que, tal como Capote, é conhecida pela excelente memória, tentava se afastar ao máximo de opiniões e julgamentos e desenvolveu com rigor aquela que era sua principal característica: a observação minuciosa.
Curiosidade: Em relação ao rótulo de new journalism que foi colocado sobre sua geração, Lillian afirmou, durante o debate da FLIP, que não gosta do termo: “Não existe novo jornalismo ou velho jornalismo. Há apenas o texto bom e o texto ruim”, resumiu ela.
Um caso arquivado (A cold case)
Autor: Philip GourevitchEditora: Companhia das Letras
Philip Gourevitch é um representante mais jovem do jornalismo literário norte-americano. Com 45 anos, ele também faz parte do quadro de escritores da “The New Yorker”. “Um caso arquivado” conta a história de Frankie Kholer, um homem que, após praticar duplo homicídio em 1970, é tido como morto pela polícia de Nova Iorque. Anos mais tarde, um investigador nova-iorquino decide reabrir o caso, convencido de que o assassino ainda estaria vivo. Gourevitch, certamente influenciado pela narrativa de Capote, investiga a história a fundo e desvenda uma série de vícios e peculiaridades do aparelho policial norte-americano. É fascinante ver o autor mergulhando nos questionamentos de Andy Rosenzweig, o investigador que ressuscita o caso. O livro torna-se, assim, mais do que uma bem cuidada reportagem e retrata um sistema que, muitas vezes, não consegue impor limites entre certo e errado.
Curiosidade: Gourevitch – que participou da mesma mesa de debate de Lillian Ross na Festa Literária de Parati – é, além de colaborador da “The New Yorker”, editor de outra prestigiada publicação: “The Paris Review”.
* Marcella Vieira é aluna de Comunicação da Universidade Candido Mendes – Tijuca e participou da Oficina de Jornalismo da Festa Literária Internacional de Parati 2006.
*por Marcella Vieira
O jornalismo literário conseguiu unir reportagem e literatura. Esta seria uma forma mais simplista e básica de definir o termo que, há anos, cativa tanto os amantes das grandes reportagens investigativas quanto os da boa literatura. A revista americana “The New Yorker” foi o principal veículo que alçou esta forma de se fazer jornalismo a um patamar de prestígio nas rodas de literatura mundo afora. Alguns dos mais destacados nomes do jornalismo norte-americano, como Truman Capote, Tom Wolfe, Lillian Ross e Philip Gourevitch, além de colaboradores da publicação, são também vistos como grandes escritores e autores, cujas obras enriqueceram a literatura dos Estados Unidos e influenciaram gerações.
No início dos anos sessenta, foi iniciada no jornalismo norte-americano uma corrente intitulada new journalism, onde textos jornalísticos ganhavam tratamento literário, combinando a objetividade dos fatos aos recursos da narrativa de ficção e, sobretudo, da boa escrita. Truman Capote, talvez o mais talentoso e, certamente, o mais polêmico dentre estes escritores, gostava de dizer que “A Sangue Frio”, sua mais famosa obra, iniciava um novo tipo de literatura: o romance de não-ficção ou romance sem ficção.
Em agosto de 2006, fui à Festa Literária Internacional de Parati (FLIP) para participar de uma oficina de jornalismo. A oficina contou com a parceria e a contribuição da revista Piauí, um veículo que será lançado com a pretensão de dar novas formas e dimensões à reportagem, gênero tão esquecido pela grande mídia brasileira, e uní-la, obviamente, a um texto de alta qualidade. Mas além da oficina, a revista também apoiou duas mesas que trouxeram figuras ilustres do mundo da reportagem: “Profissão repórter: na linha de frente” com as participações de Christopher Hitchens e Fernando Gabeira e mediação de Merval Pereira e “Profissão repórter: a arte da reportagem”, que contou com Philip Gourevitch e Lillian Ross.
Compareci aos dois debates e achei a primeira mesa ruim e extremamente focada em debates políticos. Não há, aliás, nenhum mal no enfoque dado à política. O problema é que a discussão ficou vazia e acabou sendo uma espécie de conversa acalorada sobre os assuntos do momento. A discussão política tornou-se inútil, a reportagem – o suposto tema principal da mesa – foi esquecida e o debate virou uma troca de ofensas entre os participantes, com direito a um personagem extremamente caricato: o inglês Christopher Hitchens.
Já a mesa que contou com Gourevitch e Lillian Ross foi excelente por ter abordado exatamente o assunto ao qual estava destinada: a arte da reportagem. E ninguém melhor para debater tal tema do que dois colaboradores da “The New Yorker”, sendo que um deles – Ross – é uma espécie de baluarte da revista, além de referência lendária do jornalismo norte-americano.
Assim, para todos aqueles que pretendem se aventurar pelo ofício da reportagem e que sabem da importância de se desenvolver, acima de tudo, um texto de qualidade, são destacadas abaixo as publicações de alguns dos autores aqui citados. Preparamos boas dicas de leitura para aqueles que, jornalistas ou não, querem conhecer melhor o universo do jornalismo literário:
A Sangue Frio (In Cold Blood)
Autor: Truman Capote
Editora: Companhia das Letras
O livro de Capote é um marco do jornalismo literário. Uma obra ousada, emotiva e sem precedentes na história da literatura norte-americana, pois redefiniu os limites entre texto jornalístico e narrativa de ficção. Quando leu, em 1959, uma pequena nota em um jornal sobre o assassinato da família Clutter em Holcomb, Kansas, Capote partiu para a pequena cidade e investigou o caso por conta própria. Ao todo, foram mais de seis anos de investigações, com direito a exaustivas conversas e relatos e a ajuda de uma memória que, garantia o próprio – e nada modesto – autor, beirava a perfeição. Ele fez, assim, uma precisa reconstituição de um crime e das conseqüências que este trouxe aos habitantes da pequena cidade. Em 1965, o texto foi publicado, em quatro partes, na revista The New Yorker, para, logo depois, chegar às livrarias e se tornar um sucesso instantâneo da literatura contemporânea. É livro obrigatório não apenas para jornalistas, mas, principalmente, para todos aqueles que amam e acreditam na boa literatura.
Curiosidade: Foram muitos os boatos de que Capote manteve um relacionamento amoroso com Perry Smith, um dos acusados do crime. E estes boatos ganham contornos nítidos ao longo do livro, já que é facilmente perceptível o quanto o autor demonstra compaixão e afeição ao descrever a vida, as motivações e as características do assassino.
O Filme (Picture)
Autor: Lillian RossEditora: Companhia das Letras
Se Truman Capote foi o grande ícone do jornalismo literário e trouxe notoriedade ao chamado new journalism foi porque, em meados dos anos cinqüenta, ele leu o livro “Picture” de Lillian Ross. Capote não cansava de exaltar as qualidades do livro de Ross, uma das estrelas da FLIP 2006. Em 1951, ela, então uma jovem repórter, recebeu um convite do diretor de cinema John Houston para acompanhar e investigar todo o processo de desenvolvimento do filme “A glória de um covarde”. O livro narra todos os passos da produção de um filme dentro dos rígidos padrões da indústria cinematográfica norte-americana. Lillian que, tal como Capote, é conhecida pela excelente memória, tentava se afastar ao máximo de opiniões e julgamentos e desenvolveu com rigor aquela que era sua principal característica: a observação minuciosa.
Curiosidade: Em relação ao rótulo de new journalism que foi colocado sobre sua geração, Lillian afirmou, durante o debate da FLIP, que não gosta do termo: “Não existe novo jornalismo ou velho jornalismo. Há apenas o texto bom e o texto ruim”, resumiu ela.
Um caso arquivado (A cold case)
Autor: Philip GourevitchEditora: Companhia das Letras
Philip Gourevitch é um representante mais jovem do jornalismo literário norte-americano. Com 45 anos, ele também faz parte do quadro de escritores da “The New Yorker”. “Um caso arquivado” conta a história de Frankie Kholer, um homem que, após praticar duplo homicídio em 1970, é tido como morto pela polícia de Nova Iorque. Anos mais tarde, um investigador nova-iorquino decide reabrir o caso, convencido de que o assassino ainda estaria vivo. Gourevitch, certamente influenciado pela narrativa de Capote, investiga a história a fundo e desvenda uma série de vícios e peculiaridades do aparelho policial norte-americano. É fascinante ver o autor mergulhando nos questionamentos de Andy Rosenzweig, o investigador que ressuscita o caso. O livro torna-se, assim, mais do que uma bem cuidada reportagem e retrata um sistema que, muitas vezes, não consegue impor limites entre certo e errado.
Curiosidade: Gourevitch – que participou da mesma mesa de debate de Lillian Ross na Festa Literária de Parati – é, além de colaborador da “The New Yorker”, editor de outra prestigiada publicação: “The Paris Review”.
* Marcella Vieira é aluna de Comunicação da Universidade Candido Mendes – Tijuca e participou da Oficina de Jornalismo da Festa Literária Internacional de Parati 2006.

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